segunda-feira, 27 de julho de 2020
Larp Brasil - Roteiros para Larp
postado por Luiz Falcão às 18:09O site larpbrasil.blogspot.com é um site alimentado desde 2013 (possivelmente) com larpscripts (também chamados de roteiros, programas, manuais... o nome pode variar).
É um repositório: um 'lugar' na internet para reunir textos a partir dos quais você mesmo - ou um grupo de pessoas - possa fazer um larp acontecer.
Nesse site, você encontrará variados roteiros com estilos, propostas, visões do larp, durações, quantidade de jogadores, recursos necessários à produção... muito diversos.
Hoje são 76 jogos, de 41 autores, de 9 países diferentes. A maioria, brasileiros, mas não só. Temos larps noruegueses, suíços, poloneses, palestinos...
Vale a pena navegar e perder-se em meio a tantas propostas e caçar aquela que se comunica com você e com seu grupo de jogo.
O site também, é claro, é aberto a colaborações.
É um trabalho lento, mas prolongado - e a ideia é que qualquer pessoa possa se beneficiar dos frutos dele.
Na atualização de Julho de 2020, larps de Luiz Falcão, Luiz Prado, Cecília Reis, grupo Coral Amarelo, Igor Moreno e James Lórien MacDonald - com diferentes temas e formatos.
http://larpbrasil.blogspot.com/2020/07/ultimas-atualizacoes.html
quarta-feira, 17 de junho de 2020
Um Manifesto para os Laogs - Live Action Online Games
postado por Luiz Falcão às 23:49publicado no nordiclarp.org em 14/06/2019
Laog é a abreviação para live action online game - e isso diz tudo, não é? Podemos jogar larp quando estamos atrás de nossa câmera de vídeo. Podemos jogar com pessoas de todo o mundo e estar 100% no personagem. Podemos usar metatécnicas, estar completamente no personagem (podemos dizer, imersos 360 graus) ou sair dele para definir o jogo em atos.
Laog é um domínio de design que queremos explorar e definir criando e jogando jogos com ele.
Este documento é sobre o que aprendemos, o que imaginamos e o que recomendamos.
[Aviso: não estamos presos ao termo laog - 'larp digital' ou 'larp online' também funcionam. O que depõe a favor de laog: não é um termo derivado de outras formas de jogo.]
Jogando Online
Jogar online nos fornece algumas ferramentas extras, exige boas práticas e impõe certas restrições.Mais ferramentas
Ter uma janela de bate-papo para interação fora dos personagens é uma oportunidade em muitos aspectos: metatécnicas, check-ins de segurança, perguntas técnicas e sobre regras etc.A distância física entre os jogadores permite, sob certas circunstâncias, que nos sintamos mais seguros. A porta de saída está sempre aberta e fica a apenas um clique de distância. Você pode voltar para casa um segundo depois que decidiu partir. Os bate-papos privados entre jogadores podem ser uma maneira adicional e não intrusiva de fazer check-in, para um debrief contínuo, para trabalhar a experiência.
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Manifesto do Jeitinho Brasileiro
postado por Luiz Falcão às 12:30conforme originalmente publicado em 20 de agosto de 2018 no Blog LarPensar, de Tadeu Rodrigues Iuama
Da aurora de nossas experimentações com o larp, nós, enquanto brasileiros, já nos deparamos com algo que fazia valer nossa cultura sobre as imposições cristalizadas em um manual de regras. Se Leis da Noite, o primeiro “manual” de larp que chegava no Brasil, já previa a regra do “não tocar”, nos víamos diante de um celeuma. E o jeito, já nos primórdios do larp praticado nessas terras, foi usar o famoso “jeitinho brasileiro”. Pelo jeitinho brasileiro, nos manifestamos:
1. Jogar é Tocar. Não somos estadunidenses. Isso é importante evidenciar. Nossas culturas são diferentes. Aqui, nós nos abraçamos, damos beijos no rosto (um, dois ou até três!) quando conhecemos alguém, pegamos nas mãos uns dos outros, colocamos a mão sobre o ombro de alguém quando queremos dizer algo importante, esbarramos uns nos outros nos transportes coletivos lotados. Nossa “bolha” é muito menor. Portanto, é estranho que não possamos nos tocar durante os larps. A premissa de que isso mantém segurança nunca nos convenceu: quando algo dá errado, irá ocorrer com ou sem o toque. Mais do que isso, nós tocamos as coisas. Tocamos atabaque, mas também tocamos violão e piano erudito, falamos “SE TOQUE” para alguém que perde o bom-senso. Tocar, em português, remete a to play, não por acaso, o verbo usado para jogar. Contra as tele-presenças, evocamos a existência de corpos em nossos larps, sob os auspícios de Boal. Somos brasileiros: existimos, logo pensamos. Por isso, para nós, o toque não é proibido. A falta consenso o é.
2. Jogar para Somar. Em algum momento, já jogamos para perder. O sentido disso era garantir que cada um dos jogadores não tivesse por foco que a narrativa de seu personagem fosse, de alguma forma, vencedora. Mas ainda assim, pensamos que jogar para perder parte da mesma visão individualista, talvez utilitarista do jogar para ganhar. Não implica, a princípio, preocupação com o jogo do outro. Jogar para somar, por outro lado, nasce da colaboração. Não poderia ser diferente, por sermos tributários de Paulo Freire, que nos ensina que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Pretendemos, a partir disso, propor um larp que saia da dinâmica de vencedor (opressor) e perdedor (oprimido).
3. A terceira margem do rio. Nem larp nórdico, nem jeito sulista: tomar um manifesto escrito na Itália como manifesto sulista é ignorar tudo o que acontece ao sul da linha do Equador. Mesmo que em pontos divergentes, compartilham do mesmo relevo. Da mesma margem. Contra uma visão eurocêntrica (alguns dirão colonialista), celebramos ao poeta Guimarães Rosa, e sua terceira margem do rio. Filhos de pais cumpridores e mães régias, nos recusamos a ficar na primeira margem ou chegar à segunda margem. Trocamos a segurança do solo pela fluidez do rio. Mudamos “no devagar depressa dos tempos”, ao mesmo tempo em que afirmamos que “ninguém é doido. Ou, então, todos”. Não nos alinhamos, embora tenhamos bebido desses mananciais, nem ao larp nórdico nem ao jeito sulista. Os larps blockbuster, ou as chanchadas, não competem a nós.
4. Larp da fome. Se o Dogma 99 parte de uma inspiração do Manifesto Dogma 95 (do cinema), transliterado ao larp, nos sentimos no dever de evocar a estética da fome e o Cinema Novo de Glauber Rocha. Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça? Não. Também. Para longe dos figurinos e cenografias exuberantes, o larp da fome buscou, busca e buscará a redução de todos os acessórios, procurando pela essência do larp. Um larp minimalista? Talvez. Mas mais do que isso. Um larp que compreende que a ilusão 360º pode ser criada pensando em larps que se passem em um bar, para serem jogados em um bar. Numa sala branca com luzes diretamente nos olhos, reproduzindo a higienização high-tech de uma nave espacial. Numa garrafa de café. Num cigarro. Na cachaça oferecida à uma entidade. No uso dos próprios participantes como cenografia. O larp não sendo visto pela lente do cinema é pensar que a violência do larp reside justamente na sua negação ao espetáculo.
5. Manguebleed. Tributários do manguebit, entendemos o larp como uma forma de arte, uma mídia e uma linguagem. Mas também entendemos o larp como ocupação. Um choque contra o coração de uma cultura à beira do infarto. O protagonismo inerente aos larps é uma resposta ao consumo de uma cultura cada vez mais pasteurizada. Por isso, procuramos pelas brechas, pelos não-lugares. A blackbox não nos é algo viavelmente disponível. No lugar dela, os bares, os restaurantes, as garagens desocupadas, os parques, os centros culturais, as salas de aula, as praças, as bibliotecas públicas, as chácaras coletivamente alugadas. Façamos com que esses corações voltem a irrigar sangue para a relação indivíduo-espaço público.
6. Por um larp antropófago. Temos uma cena diversa e descentralizada no Brasil. E a falta de centralização (por vezes, até de diálogo) é o que garante a diversidade. Não seria exagero dizer que só a participação nos une. Dos reinos do nordeste ao sul do boffer larp, do MilSim paranaense, da Comuna paulista de larp, dos larps de World of Darkness em diversas cidades espalhadas pelo país, do larp praticado em eventos, do larp enquanto prática cultural reconhecida pelas políticas públicas, do larp dentro de apartamentos – a única coisa que é compartilhada é o interesse na participação. Em devorar a contribuições do outro. “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”, diria nosso quase centenário Manifesto Antropófago. Negar a isso seria negar o jeitinho brasileiro. Negar nossa, nas palavras de Oswald de Andrade, “consciência participante”.
Um Voto de libertinagem?
Pois a castidade não cabe a nós...
Tadeu Rodrigues, após longas conversas com Luiz Prado e Luiz Falcão
Ano 464 da Deglutição do Bispo Sardinha
Debate sobre o Manifesto
Bastidores do Manifesto
The Jeitinho Brasileiro Manifesto
Manifesto do Jeitinho Brasileiro
* as ilustrações usadas nas imagens são do artista J. Carlos para capa da revista PARA TODOS #1479, de 18 de fevereiro de 1928.
** essa postagem foi compilada em 04 de setembro de 2026, mas postada na data de publicação do manifesto para fins de arquivamento
terça-feira, 3 de abril de 2018
O Verso da Máscara, de Tadeu Rodrigues Iuama
postado por Luiz Falcão às 04:26O livro é resultado do mestrado do pesquisador, defendido em 2016, revisado e diagramado pelo NpLarp e está sendo publicado - sob domínio público! - pela Editora Provocare. A publicação também conta com prefácio de Mônica Martinez e posfácio de Jorge Miklos.
A versão impressa pode ser adquirida com o autor e, em breve, com o NpLarp.
Uma das marcas de nossa condição humana é a capacidade de dar vida aos vários “eus” que nos habitam, ou, nas palavras de Fernando Pessoa, a possibilidade de outrar-nos. Podemos nos transformar, jogando, naquilo que não somos, de fato, em nosso cotidiano. Podemos viver mundos distintos, diferentes culturas, situações inimagináveis, lugares impossíveis. O teatro, a literatura, o cinema, as histórias em quadrinhos, as brincadeiras, entre tantas outras invenções humanas, são artifícios para alargarmos a nossa experiência; são, portanto, modos de jogar com outros humanos e, mais do que isto, são jogos que empreendemos com nosso próprio ser, pois permitem testar nossos limites e habilidades. Oferecem-nos a oportunidade de uma transformação da subjetividade, sem riscos imensuráveis. Retiram-nos do cotidiano para talvez nos devolver mais plenos e conscientes do que somos, não somos e desejamos ser. Nesta obra, os jogos narrativos - role playing games (RPG) e live action role play (larp) - são abordados a partir de suas características de produtos culturais e processos comunicacionais, por sua possibilidade de criarem vínculos e de trazerem à tona narrativas que remetem à experiência dos jogadores. Pensar os jogos como comunicação permite pensar a comunicação como jogo, como forma de nos adaptarmos às diversas arenas, regras, situações, adversários e parceiros com os quais nos relacionamos ao longo de nossa existência. Esta obra nos revela que, com a comunicação, jogamos para nos mantermos vivos em meio ao embate com os tantos que somos. Que a cada jogo, é o que esperamos, possamos criar uma versão melhor de nós mesmos.
– Míriam Cristina Carlos Silva
quarta-feira, 14 de março de 2018
Uma espiada no próximo projeto do NpLarp
postado por Luiz Falcão às 01:28Próximo projeto do NpLarp está sendo realizado (e chegando nos finalmentes) em parceria com a Provocare Editora - quem advinha do que se trata?
sábado, 17 de dezembro de 2016
Elge Larsson
postado por Luiz Falcão às 23:19Primeiro, há exatos cinco anos eu estava realizando, com os companheiros Cauê Martins e Erika Bundzius, o larp A Clínica: Projeto Memento. Uma produção paradigmática, na minha trajetória no larp e para o larp no Brasil de uma maneira geral, como eu acredito e já deixei explícito em muitas palestras, artigos e inclusive na minha participação no Knutpunkt em 2014. Luiz Prado, que hoje toca os projetos do NpLarp, Boi Voador e FERVO junto comigo, estava entre os jogadores - e considera esse larp um ponto de virada também no seu entendimento da linguagem.
Segundo, eu descobri recentemente que o dia 17 de dezembro marcava, na Roma Antiga, o início das festividades da Saturnália, que é uma ocasião que, além de ter suas relações com a linguagem do larp, dá nome ao grupo de larp de Dourados - MS, encabeçado por Tig Vieira, que eu tenho a felicidade de ter incentivado e acompanhado à distância graças a generosidade e curiosidade deste interlocutor
E terceiro porque hoje, em algum lugar de Estocolmo, na Suécia, está sendo celebrado, enquanto escrevo essas linhas o Memorial Evening de Elge Larsson (1944–2016), uma noite dedicada à sua memória.
Elge deixou esse mundo para finalmente transgredir a realidade física (como disse Mike Pohjola na ocasião de seu falecimento) entre os dias 3 e 4 de novembro. Foi vítima do câncer, contra o qual lutava há anos. Quando o conheci - virtualmente - já estava doente. Lembro dele ter mencionado que não estava podendo viajar de avião, por conta de complicações de saúde.
Mais tarde, apresentou tamanha melhora que chegou a mencionar que talvez viesse para o Brasil, visitar um amigo - outro sueco que está morando aqui, e com o qual eu também me correspondia. A última coisa que eu disse a Elge Larsson foi “Come to Brazil, Elge”, em resposta àquela afirmação.
Mas o câncer é uma doença traiçoeira - e Elge voltou a piorar. Sua última postagem no facebook - a não ser é claro por um vídeo humorístico - foi um “cancer report” onde ele dizia que os médicos haviam lhe dado não mais que um ano de vida. Foram apenas alguns dias, infelizmente.
Quem passar os olhos pela linha do tempo de Elge naquela rede social poderá ter ideia do quanto ele era querido e amável. Os relatos e depoimentos, todos, concordam em vários aspectos. Ele era um homem muito generoso e com um espírito jovem. Recusava o título de “vovô do larp”, como recusava ser tratado de forma diferente por ser mais velho. Representava o encontro de duas subculturas, marginais e transgressoras: o movimento hippie e o larp. Era, para muitas pessoas, como um padrinho acolhedor, mas sobretudo, para a maior parte deles, um amigo. Há posts de muitas pessoas ali: de “celebridades” do mundo do larp como Martin Ericsson (da White Wolf) e Claus Raasted (dos larps de Harry Potter), de familiares, amigos e pessoas que o viram poucas vezes (especialmente alguns alunos seus da Faculdade de Magia e Bruxaria, onde ele costumava ser professor). De faixas etárias, nacionalidades e biografias completamente diferentes. Muitos parecem concordar com a importância que Elge teve em suas vidas - de alguma forma ele fez a diferença.
Eu não o conhecia pessoalmente, mas a morte de Elge me acertou com impacto profundo. Um impacto que dificilmente eu poderia imaginar que esse evento teria.
Eu conheci Elge através do coletivo Deltagar Kultur/Ineracting Arts. Foi um dos primeiros materiais do larp nórdico ao qual tive acesso - talvez antes mesmo de conhecer o Dogma 99. (Isso foi em 2009? 2010?) Trata-se de um coletivo sueco que, entre outras produções que me fascinaram (como uma atividade com máscaras em praça pública que parecia ser um larp, ou um mp3 para baixar e seguir as instruções na cozinha, que influenciou minhas pesquisas também no fazer teatral com o coletivo Sáfaro… avataravo) tinha publicado, no issuu, duas edições internacionais da revista Interacting Arts. “Nós somos o que acontece quando o escapismo contra ataca”. “Roleplaying Radical”. Eram os slogans da publicação, com forte teor político, que me deixou apaixonado.
Algum tempo depois, eu passei a acompanhar as demais atividades e publicações do grupo à distância. (Até seu fim, há alguns anos). Uma postagem singela no blog do Eirick Fatland (Tips & Traps) abriu minha cabeça de modo muito potente para o que significava esse diacho de “arte participativa”. E eu passei a namorar muito seriamente o livro Deltagar Kultur, por alguns anos, que só existia em sueco e estava disponível em copyleft pela internet.
A inquietação e curiosidade acabou me levando, em 2014, a procurar os autores diretamente para saber mais a respeito. Consegui o contato de dois deles, Elge Larsson e Gabriel Widding, que foram muito generosos e acolhedores. (Diga-se de passagem, duas palavras que parecem caracterizar Elge são “transgressão” e “generosidade”). Widding inclusive é quem organiza o evento da noite de hoje, em homenagem ao colega e amigo. Mais jovem e com uma pesquisa que engloba também o teatro, Widding tinha estado recentemente no Brasil para um festival de Teatro Épico. Mas quem deu atenção a minha curiosidade pelo Deltagar Kultur foi Elge Larsson. Os quatro autores haviam começado uma tradução para o inglês, que não havia andado por falta de um editor.
Deixando muito claro que estávamos na absoluta ilegalidade, Elge contrabandeou essa versão para mim - e foi o primeiro livro em inglês que eu li até o final. Vale dizer nesse ponto que apesar o meu envolvimento com a cena de larp internacional meu inglês é péssimo. O que nunca impediu Elge de elogiá-lo, mesmo que vez ou outra não entendesse nada do que eu dizia. Desse episódio em diante, conversamos bastante pela internet. Eu animado por ter um interlocutor sueco, mais velho e mais experiente que eu. Ele animado por ter um leitor engajado no Brasil (o que para alguém na Suécia deve ser bem bacana mesmo, visto que o livro em questão sequer havia sido publicado em inglês).
Passei a incorporar a leitura do Deltagar Kultur em meu repertório e, com autorização dos autores, a cavar aqui no Brasil uma oportunidade de publicá-lo em português. Elge Larsson e Gabriel Widding me garantiram que eles poderiam vir ao Brasil para o lançamento, caso isso realmente se concretizasse.
É aqui que a história ganha ares mais impactantes.
O contato com a editora que ia publicá-lo acabou esfriando, junto com a procura por um tradutor parceiro, que topasse dialogar comigo e com os autores sobre as possibilidades e especificidades da produção. Até que, no dia 18 de outubro deste ano, após a defesa de mestrado do colega sorocabano Tadeu Rodrigues Iuama, ele próprio retomou o assunto. “Agora que eu terminei o mestrado, vamos fazer aquela tradução do Deltagar”. Grande parceiro, professor de inglês e mestre em larp por uma faculdade de comunicação, a notícia não podia ser mais bem vinda. Combinei de apresentá-lo ao Elge Larsson, meu contato, assim que voltasse para São Paulo. Mas estávamos às vésperas do Encontro de RPG do CCJ, onde todos os anos acumulo muitas funções, e pedi para esperarmos alguns dias. Na semana seguinte, estava envolvido com os preparativos para a festa de aniversário da minha filha - e acabei não fazendo o combinado também. Tendo em vista minha demora, o próprio Tadeu Rodrigues o procurou. Elge foi solícito, como sempre, mas monossilábico. Enviou para ele todos os arquivos, os contato dos demais autores e a confirmação “Go Ahead”. Foi tudo o que ele disse. (isso foi no dia 30 de outubro).
No dia 4 de novembro, debatíamos eu e o Tadeu Rodrigues sobre minúcias da tradução. Dia 6, de manhã, foi ele quem me deu a notícia. Elge Larsson estava morto. Foi a primeira coisa que soube ao acordar.
Foi por um triz.
Eu deixei de apresentá-los. Deixei de trocar as últimas palavras afetuosas com o Elge (ele sempre era absolutamente afetuoso, mesmo sem me conhecer pessoalmente). Elge também não viria ao Brasil. Nem para ver seu amigo que está morando aqui, nem para o lançamento de seu livro em português. Eu não poderia conhecê-lo pessoalmente e passar alguns momentos com ele em um futuro Knutpunkt. Não poderia ouví-lo falar sobre o larp como possessão, ou qualquer outro assunto que ele viesse a desenvolver, quando meu inglês me permitisse entender o enunciado com tranquilidade.
Mais que isso.
Elge foi a primeira pessoa envolvida com larp, que eu conhecia e com quem eu dialogava, que eu “vi” morrer. Para mim, foi de certa maneira um aviso: Elge leva com ele todo o conhecimento que, de alguma forma, não passou adiante.
No início desse ano, eu me comprometi com uma missão - que como todo compromisso de ano novo, neglicenciamos - a produção de conhecimento é mais importante que disseminação de informação. Trabalhamos muito, mas falamos pouco sobre nosso trabalho. A morte de Elge me deu a dimensão da efemeridade desse conhecimento acumulado. O que não registrarmos em textos, vídeos, o que não passarmos adiante em histórias e convívio, se perderá.
A linha do tempo de Elge no facebook passou a revelar uma porção dessas histórias. (Uma infinidade de outras, ele levou consigo). Ele é um dos organizadores do larp Dragonbane (aquele com o dragão de 15 metros). Mas até então eu não sabia que ele havia pedido dinheiro emprestado para o Claus para cobrir uma dívida de produção do jogo - e que a relação dele com dinheiro era séria, mas desapegada. Eu também não sabia que foi ele quem traduziu A Jornada do Herói, do Campbell, para o sueco. Ele também apresentou em 2014 (o mesmo ano em que o Wagner Luiz Schmit e eu apresentamos meu artigo no Knutpunkt) uma fala brilhante sobre imersão como possessão, cujas anotações ele publicou na internet. A gravação em vídeo sofreu algum problema e nunca foi compartilhada, mas outro amigo estava lá assistindo, o português José Jácome, e me deu alguns detalhes sobre como foi a exposição.
Eu demorei alguns dias para entender e interpretar o que essa perda significava para mim. Uma sessão com meu terapeuta foi toda dedicada a compreender o que isso queria dizer. O emaranhado de relações simbólicas, de coincidências, de sincronicidades, influências e correspondências.
Com meu psicólogo, entendi que a vida de uma pessoa ganha outro sentido no momento de sua partida. E pessoas do mundo inteiro, nesse momento, estão celebrando essa passagem nesta noite. Em Elge, perdi um interlocutor generoso, e ganhei um modelo sobre o qual refletir, uma obra sobre a qual me debruçar.
Elge foi embora, restam os resultados de seu trabalho, as influências pequenas e/ou grandiosas que ele deixou em sua passagem por nosso mundo - e uma porção de ensinamentos e sensibilizações que ainda vão se desdobrar para sempre, no que permaneceu de suas ações, e nas ações daqueles nos quais algo dele permaneceu.
* Luiz Falcão é fundador do Nplarp.
Livro Gratuito: Artes Participativas
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
Defesa de mestrado de Tadeu Rodrigues Iuama
postado por Luiz Falcão às 14:50Conhecemos o Barba em 2013, quando levamos o Boi Voador para um evento onde o Taberna Terra Rasgada - grupo do qual ele faz parte - estava organizando a programação de RPG. Tendo conhecido o Falcão em um grupo de Facebook ligado a RPG, sabia que ele fazia esse tal de live-action. Foi um convite despretensioso...
Naquele mesmo dia, após uma palestra do NpLarp, ele e outros parceiros foram jogar para ver o que é que era esse tal de larp que fazíamos! Foi possivelmente o "Boa Noite Queridinhas" mais longo que já jogamos. Muitos daqueles jogadores dizem até hoje que foi uma experiência transformadora. Para o Barba talvez tenha sido a mais transformadora dentre todos.
Algumas participações em eventos, muita jogatina, bate-papo, visitas, podcasts, mais jogatina, mais bate-papo, trocas de bibliografia, etc, etc, etc... * E três anos depois (o primeiro contato foi 11 de outubro de 2013) lá está o Barba defendendo sua dissertação sobre larp.
10. Com louvor. Indicado à publicação. Indicado à continuidade da pesquisa no doutorado.
A primeira dissertação sobre larp na área da comunicação. A mais completa revisão bibliográfica sobre larp já feita. Um projeto de pesquisa absolutamente estimulante.
Um momento histórico para o larp - e para os envolvidos nessa história de paixão.
Ao novo mestre, nosso muito obrigado.
A todos os demais: o centro da pesquisa foi o larp Sê um viajante numa noite de inverno, do companheiro Luiz Prado.
A pesquisa Processos comunicacionais nos jogos narrativos: A relação entre o roleplay e as histórias de vida dos Players, de Tadeu Rodrigues Iuama já pode ser acessada no site da Uniso.
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| A orientadora Monica Martinez, Tadeu Rodrigues Iuama, e os professores Jorge Miklos e Miriam Cris Carlos. (Foto: Gisele Souza) |
Leia também:
Relato da pesquisadora Vanessa Heidemann, do grupo de pesquisa NAMI, da Uniso, sobre esta defesa de mestrado.



















