terça-feira, 5 de novembro de 2013

Sangrando em cacos de vidro

uma resenha sobre Cegos,

por Luiz Prado
Acho ofensivo com toda a experiência de Cegos, o larp de Jonny Garcia baseado em Ensaio sobre a Cegueira, começar isso assim, de banho tomado, noite bem dormida e estômago cheio. Mas, pelo menos, serve para indicar que a pancada foi forte e cobrou umas horas de descanço para o corpo e a cabeça.

Na maior parte dos larps brasileiros até agora, a linguagem está associada à diversão, ao lazer e à brincadeira. Você vai num larp procurando horas agradáveis, basicamente. Existe uma espécie de acordo implícito entre organizadores e participantes de que tudo vai ser bom e de que, mesmo nas propostas mais pesadas, haverá um cuidado, uma preocupação com o bem-estar físico e emocional de todo mundo.

Com Cegos não. Cegos é escroto. Propositalmente escroto.

Ríspido, escasso e violento

O enredo é seco: um grupo de pessoas perde a visão sem explicações e é levado até um apartamento esvaziado em lugar nenhum, uma residência de quarentena mantida por militares. Enquanto ficam lá, esperando uma cura, precisam enfrentar o racionamento de comida, o frio, a arbitrariedade dos guardas e o tédio. Para garantir as sensações dessa proposta, a aproximação entre jogador e personagem é estreita e a linha entre um e outro, tênue - fome, frio, agressão e humilhação são partilhados por ambos, o tempo todo. Não é preciso fingir: você sente o vento gelado nos braços e a humilhação estocando seu orgulho.

A agressão começou com a duração do larp. Foram 24 horas na escuridão, com olhos vendados, proibição de abandonar o personagem - entrar em off - e apenas 5 minutos para uma ligação noturna de "estou vivo e mais ou menos bem, família". Outro soco na boca do estômago foi a falta de informação: a trama vaga e repleta de lacunas torceu a imaginação dos participantes. Os militares encarregados de manter o grupo sob controle também colaboraram sendo lacônicos e ríspidos, ignorando pedidos de explicação e vomitando ordens sem qualquer esclarecimento.

A escassez de recursos básicos também foi outra paulada. Foram horas de fome, com a comida vindo na forma de uma ou duas bisnagas jogadas no chão de tempos em tempos. Os banheiros não tinham papel higiênico ou sabão. A água era trazida em galões e precisava ser partilhada no gargalo, na hora, por todos. Um cobertor e um travesseiro foram negociados por 60 reais - dinheiro vivo, que não foi devolvido no final do larp. Um participante passou a noite no chão frio e outro agachado dentro de um guarda-roupas com portas fechadas para conseguir algum calor.

Completando a violência, agressão física, real e transbordante do mundo do jogo para a carne do jogador. Vento frio, água gelada, imobilizações, agarrões, empurrões. A cada tentativa de escapar ou subverter as regras, uma punição mais dura, numa escalada de afrontas físicas e psicológicas perigosamente na fronteira entre o jogo e o não-jogo. Todos os perigos que o larp passou anos tentando evitar, ali, de uma vez, deliberadamente explícitos e obscenos.

Mas para onde tudo isso levou? Do que falou a experiência de Cegos?
fotos Jonny Garcia

Linhas tênues

Por um lado, falou de fragilidade, revolta e submissão. A falta de visão e a dependência em relação aos guardas gritaram o tempo todo nos ouvidos, lembrando-nos o quanto estávamos frágeis e como odiávamos isso. Lembrou-nos de que precisávamos uns dos outros e de que cada migalha era um presente. Essa fragilidade percorreu todo o larp e garantiu a passagem da revolta inicial, com planos de fuga ingênuos e resistências inúteis, para a submissão amedrontada e esperançosa, com a aceitação de regras autoritárias e a obediência sem questionamentos.

Mas Cegos falou também sobre as linhas tênues entre jogador e personagem e sobre a responsabilidade coletiva na construção do larp. A escassez de informações sobre enredo e cenário causou incertezas nos participantes - algumas programadas, outras acidentais - que muitas vezes não sabiam o que fazia parte ou não do universo do jogo. Contudo, ao invés de uma postura reativa, à espera de explicações, os jogadores agarraram essa incerteza e traduziram-na como liberdade para co-autoria, ampliando o larp em múltiplas direções, desenvolvendo aspectos do enredo e do cenário à medida que o próprio jogo acontecia, graças às suas próprias contribuições e independentemente da organização. Dois exemplos: o som de crianças vindo da rua - que obviamente não havia sido produzido pela organização, mas que tampouco nos haviam dito para ignorar - serviu de base para teorias sobre o local onde estávamos confinados. Da mesma forma, o fotógrafo da organização tornou-se parte da história e foi incorporado ao larp - mesmo sem sabermos se deveríamos ignorá-lo ou considerá-lo elemento diegético. As informações apreendidas pelos sentidos dos jogadores foram ressignificadas como conhecimentos dos personagens, sem a intermediação da organização e, melhor ainda, com consciência de que muitas delas não faziam parte da produção prévia.

Outros exemplos dessas fronteiras tênues surgiram nas longas conversas sobre histórias de vida, ideologias ou mesmo trivialidades, nas quais, graças aos papéis construídos a partir do conceito de close to home - no qual os personagens são próximos da realidade do jogador - muitas vezes não era possível identificar se a fala era do jogador ou do personagem. Quando alguém descrevia a irmã mais nova, estava falando realmente de sua irmã ou inventava uma história? Quando alguém cantava uma canção, esta fazia parte do repertório do participante ou do personagem?

Contudo, quando essa indefinição chegou à confrontação física tivemos momentos críticos e, por um momento, eu mesmo pensei que o larp seria interrompido. Após sucessivas humilhações e ofensas cometidas pelos guardas, um personagem se atracou com dois dos militares, rolando pelo assoalho enquanto outro participante era mantido no chão por um terceiro membro da organização. Não estava claro para ninguém aonde aquilo iria terminar e quando a resistência física deixaria de ser representação para se tornar raiva e revolta do próprio jogador. Caso alguma situação passasse dos limites, qualquer um poderia gritar PARE ou SUPORTE e imediatamente a ação seria interrompida, mas a tensão do momento não garantia que essas palavras de segurança seriam evocadas a tempo. Felizmente, graças à maturidade dos participantes, tudo terminou bem para a saúde dos jogadores, apesar dessa rebelião ter mantido um membro do grupo por quase 10 horas afastado dos demais, como castigo pela insubordinação.

Um larp perigoso

Cegos foi um larp perigoso. Nublou as fronteiras entre jogo e não-jogo e tensionou os corpos e as cabeças dos participantes. O tempo todo seguiu no meio fio, oscilando entre a continuidade e a interrupção do larp, a manutenção da ideia original do criador e as propostas dos jogadores, o faz-de-conta e o real. Seu desenho cheio de lacunas e a opção de fazer o jogador sentir o mesmo que o personagem poderia ter gerado um desastre com um grupo menos maduro de participantes. Parte desse perigo poderia ter sido evitada com uma revisão do desenho do larp e o estabelecimento de acordos com o grupo: até onde podemos e queremos ir? Isso vale tanto para contatos físicos como para a liberdade de co-autoria, algumas vezes posta em dúvida pela ausência de um comentário positivo no manual do jogador.

Por outro lado, a outra parte desse perigo não é um problema, mas um aviso que me agrada muito: este é um território sério, para quem está disposto e conhece as consequências de pisar nele, para quem escolhe conscientemente caminhar entre cacos de vidro. Com Cegos, o cenário nacional do larp dá mais um passo importante para afirmar o valor artístico da linguagem e sua capacidade de suscitar questões e emoções profundas, para além do campo da diversão. É mais um caminho para a linguagem, marcado com rastros de sangue e cacos de vidro.

por Luiz Prado

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