quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Oficina do NpLarp no Projeto Redigir

O Projeto Redigir é um trabalho de extensão universitária realizado por estudantes da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Nele, os estudantes oferecem cursos gratuitos para pessoas de baixa renda, com foco no desenvolvimento da comunicação e da cidadania. Inspirado pela pedagogia de Paulo Freire, o Redigir busca subverter as formas tradicionais de educação e empoderar os educandos através do estímulo ao questionamento e ao pensamento crítico.

No dia 27 de outubro, os caminhos do NpLarp e do Redigir se encontraram, através de uma oficina de larp com os educadores e educandos do projeto. Nosso objetivo foi apresentar a linguagem, destacando o protagonismo e a colaboração inerentes aos processos narrativos do larp, estabelecendo assim relações com as propostas do curso.

O encontro teve início com uma breve fala sobre as características gerais do larp, partindo rapidamente para a prática com Uma tarde no museu, larp de Luiz Prado. Realizamos os exercícios preparatórios propostos para o jogo e, em seguida, começamos a representação.

Dos 24 participantes, 10 escolheram ser visitantes, 5 ficaram como monitores do museu e 9 decidiram encarnar as obras de arte. O larp foi realizado em espaço aberto, com os grupos observando e discutindo apenas as obras representadas pelos demais – diferentemente da aplicação anterior do jogo, feita no Museu de Arte Contemporânea da USP, na qual obras do próprio museu entraram na experiência.

Enquanto parte do grupo representou trabalhos originais, várias pessoas decidiram recriar obras de arte famosas, estabelecendo novas questões para elas. Tivemos uma pintura da Monalisa, uma escultura móvel do Homem Vitruviano, uma encenação de Hair. As esculturas dominaram a exposição, mas representantes do teatro, da pintura e da instalação também surgiram no museu.

Algumas obras aguçaram a curiosidade dos visitantes e geraram intensos debates, como as esculturas “Narciso olhando seu reflexo no lago” e “Solidão”. Outras, em contrapartida, surpreenderam pela irreverência, como a instalação “Ninja Gaiden”, que atacava os grupos ao menor sinal de aproximação.

Cada monitor foi responsável por acompanhar dois visitantes, e vários dos personagens eram estudantes. Alguns grupos buscaram conexão entre os trabalhos e estabeleceram temas e roteiros para a exposição. Motivados pelas propostas dos exercícios de preparação, os monitores deixaram o público expor suas interpretações sobre as obras, criando colaborativamente os significados de cada uma delas.

 (Uma tarde no museu. São Paulo, 2014. Imagens por Luiz Prado) 

Deixando o museu, nossa próxima atividade foi o larp Calendário, de Caue Reigota. Dessa vez, separamos os participantes em dois grupos de 12 pessoas, realizando aplicações simultâneas do jogo. Representando os meses do ano, cada um tinha a tarefa de definir um novo feriado para o calendário.

Seguindo caminhos distintos, ambos os grupos decidiram que o feriado seria de Agosto. Num deles, o próprio Agosto monopolizou a discussão e convenceu a todos da necessidade da nova data: o "dia da reconciliação", a segunda-feira seguinte ao dia dos pais. O novo feriado viria dar aos pais separados um dia a mais com seus filhos e, ao mesmo tempo, evitaria reclamações de ex-esposas a respeito do horário em que as crianças voltavam para casa no domingo.

Já o outro grupo chegou ao feriado não pelo convencimento, mas pelo consenso. Todos concordaram que Agosto era merecedor e estabeleceram 19 de agosto como o "dia da gratidão", deixando claro que a data não deveria ser apropriada pelo comércio.  O dia 19 foi escolhido pelo significado dos números, conforme o grupo declarou na discussão pós-larp.

Nas duas aplicações de Calendário, as pessoas tiveram alguma dificuldade ao representar seus personagens, graças à natureza abstrata dos papéis. Isso fez com que, em vários momentos, a discussão acontecesse entre os próprios participantes, e não entre os meses do ano. Provavelmente, a realização de alguns exercícios preparatórios específicos para o jogo – como feito para Uma tarde no museu - teria facilitado a criação dos personagens.

Além disso, o número de participantes em cada grupo contribuiu para que algumas pessoas estivessem pouco presentes na discussão, já que nas duas realizações o larp aconteceu num modelo de fórum - os personagens falavam para todo o grupo, sem conversas paralelas. Novamente, um trabalho de preparação teria auxiliado neste ponto. Mesmo com essas questões, contudo, a avaliação da experiência pelos participantes foi positiva.

 (Calendário. São Paulo, 2014. Imagens por Luiz Prado)

Após os larps, fizemos uma discussão sobre o encontro, socializando as experiências vividas nas duas atividades. Pelos comentários dos educandos e educadores, foi um dia repleto de aprendizado. E, com certeza, também foi para o NpLarp. Utilizamos pela primeira vez Uma tarde no museu e Calendário como jogos de introdução ao larp, com resultados muito positivos. Os exercícios do primeiro se mostraram eficazes para a construção dos personagens e os distintos temas e propostas dos larps serviram para apresentar parte da diversidade da linguagem. Mesmo as dificuldades que apareceram vieram como lição para larps futuros.

Algumas pessoas, no final do dia, disseram que estão ansiosas por um novo encontro. O NpLarp também.


Mais imagens da oficina na página do NpLarp no facebook: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.627980553981577.1073741828.168350336611270&type=1
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