domingo, 24 de novembro de 2013

Seu larp tem um zumbi?

por Eirik Fatland (http://larpwright.efatland.com/?p=316)
tradução de Luiz Falcão

Seu larp tem um desses?

Imagine dois larps: o primeiro é sobre adolescentes angustiados figurando sobre o sentido da vida em uma remota cabana na montanha. O segundo é exatamente igual, exceto que os adolescentes estão sendo atacados por zumbis. Qual larp você acha que vai atrair mais jogadores?

Em "Talk Larp", uma das três antologias disponíveis para download (em inglês) publicadas na conferência Knudepunkt 2011 a contribuição de Juhana Pettersson "The Zombie Necessary" contém duas observações muito úteis:

a) que raramente os jogadores tem problemas com formas estranhas e experimentais de larp - é a falta de conteúdo relacionável que às vezes assusta para longe dos materiais arthaus.

b) que um larp bem sucedido precisa de um algum conteúdo claramente relacionável - algum gancho que explique ao jogador como o jogo é jogado. Petterson chama isso de "o Zumbi Necessário". Você pode adicionar angústia existencial e experimentação arthaus em cima disso. Apenas certifique-se de que tem o zumbi.

Tendo trabalhado com o marketing dos larps do laivfabrikken e desenvolvido uma noção do que atrai um monte de ansiosos e predispostos jogadores e o que não atrai, as observações de Petterson soam muito verdadeiras para mim. Em minha comunidade em Oslo já começamos a dizer coisas como "precisamos de um zumbi necessário para esse jogo!" e "onde está o zumbi?"

Zumbis vem em muitas formas, nem todos eles estão ligados à ficção de gênero. Para Marcellos Kjeller, foi a música da Kaizers Orchestra, e o sex-appeal dos combatentes da resistência mafiosa evocados por suas letras. Não importa que o live tenho tomado a forma de um musical, com cut-scenes e estranhas meta-técnicas: o larp encheu duas vezes e provavelmente encheria mais vezes. Para Café René foi a familiaridade com a série de TV "Allo'Allo" que crescemos assistindo. O jogo do laivfabrikken “Falne Stjerner” (estrelas cadentes), sobre itens descartados na esperança de obter uma vida nova na feira de pulgas, atraiu olhares em branco até ser dito que você poderia interpretar a personagem do Livro Vermelho de Mao, divagando amargamente sobre seus antigos proprietários terem abandonado o comunismo. Conteúdo relacionável. E o que é mais relacionável que um zumbi? Eles são assustadores, estão mortos e comem cérebros. Até a sua avó sabe como jogar com eles.

Petterson também tem um ponto sobre porque esse critério de "relacionabilidade" é mais importante no larp do que na literatura e no cinema: se o jogador já se esforça para compreender o conteúdo, ele também está se esforçando para criá-lo. O novo filme do Lars von Triers continua rodando se você "sacar" ou não. O larp, no entanto, vai parar.

Eu cobri algo no mesmo terreno, com menos precisão e mais detalhe, no meu artigo "interaction codes" (publicado no Role, Play, Art). Entretanto, ali eu chamo de "Entendendo e Estabelecendo Padrões na Improvisação dos Jogadores". Eu prefiro falar sobre zumbis.



- Eirik Fatland (1976 -) é um designer de interação, escritor e larpwrighter residente em Oslo, Noruega. Criador de diversos larps (1942, 13 at the table e outros) e um dos autores do Manifesto Dogma 99, atualmente está engajado no grupo Laivfabrikken. É autor do site The Larpwright, blog sobre dramaturgia para larp, explicando e explorando como larps são feitos e como eles podem ser feitos.  

NT: Esse artigo foi originalmente traduzido em outubro de 2011 para a lista de discussão do Grupo Boi Voador e ele foi essencial para a definição de rumos na criação e divulgação do larp A Clínica.

Um comentário:

  1. Eu comparo essa condição fortemente com a literatura. É claro que o livro continua a existir se você abandona-lo, mas de que adianta um livro ou um filme sem audiência? Um bom livro pode trazer toda a sorte de mensagens, mas o faz seduzindo o leitor com intrigas, ganchos e zumbis. Serve para quem só quer se entreter sem pensar muito tanto quanto pra quem quer procurar significações mais profundas - e toda a gama que existe entre os dois extremos, visto que essas rotulações não são fixas, e sim uma espécie de escala de graduação variável.

    Mesma coisa se aplica aos LARP's, ao meu ver. Já participei de LARP's sem zumbis e percebo que não me adaptei bem ao estilo. A falta de um proposito não me permite apreciar a mensagem, pois as duas coisas caminham juntos na minha mente. Como num texto, em que a mensagem está no gancho e vice-versa. Não quer dizer que um LARP assim não funcionaria, assim como você pode desenvolver um livro com páginas e páginas de reflexão sem conflito, mas ambos terão um público mais especifico e restrito. O que não é necessáriamente uma coisa ruim, apenas um fato com o qual se lidar, eu suponho.

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